É muito amor. É muito amor por uma pátria sair de casa em um domingo e ir até um lugar qualquer votar em umas pessoas que só dão o ar da graça de quatro em quatro anos (as mais pretensiosas, de dois em dois). E é muito amor de uma pátria para com seus filhos obrigar-lhes a isso. Hoje marchamos sincronizadamente até nossas seções barulhentas, várias procissões silenciosas colorindo as ruas da cidade. Uma cena provavelmente bonita de se observar, vista de cima. Coesão nacional tanto inspiradora quanto rara. Pena que é falsa.
O império da força nunca morreu de verdade no Brasil. Você podia criticar a ditadura militar, mas teria que pagar por isso. Você pode não ir votar, mas terá que pagar por isso. Mudaram-se os nomes, abrandaram-se as penas, mas a ideia continua a mesma. Em última análise, não mudou muita coisa. A obrigatoriedade do voto é algo incompatível com o próprio conceito de liberdade. É algo tão indefensável quanto a obrigatoriedade do serviço militar. É uma prova do descaso dos políticos para com a população.
Isso é uma práxis comum na relação entre pais e filhos. Muitas vezes os pais costumam forçar certos costumes na rotina das crianças, até que provem que já são maduros o suficiente para escolher. Curioso que a nossa democracia, surgida na vitória épica de uma população madura contra uma estrutura paternal arcaica, olhe para quem a instaurou como se fosse a progenitora olhando para a prole, e não o contrário. Esse comportamento era de se esperar em uma ditadura. A grande questão é: o que a pátria espera como prova de que a nação já está madura o suficiente para ter o real direito de escolha? Uma nova revolução, talvez? Pois é próprio de cada pai e mãe querer acreditar que o filho ainda depende deles, e melhor ainda se conseguir fazer com que o filho acredite nisso.
O fato de o voto ser obrigatório, por si só, implica na crença em uma grande falta de interesse na sucessão dos cargos políticos. E essa crença é absolutamente correta. Há falta de interesse. E isso também está absolutamente correto. Pois o pior de tudo é que nós não temos voz efetiva nos rumos do país. Por mais que a propaganda diga o contrário, as eleições não implicam em mudanças objetivas. São mudanças subjetivas. Ter poder de decisão real seria fazer o desenho de toda a sala. Nas eleições, nós apenas escolhemos as carinhas que sentam nas cadeiras da sala. Dizer que isso é muito pouco seria pecar por complacência: a verdade é que isso é quase nada. Até mesmo no Big Brother há mais participação do público. Como esperar que a população se interesse por política dessa forma, se a ela só é dedicado o papel de palhaço que sai de casa para favorecer seres aos quais não conhece?
Mas essa é só uma das concessões. Existem muitos outros casos irônicos além desse, como o já citado serviço militar obrigatório. Nos regulamentos dos festivais de cinema (e provavelmente em muitos outros lugares, cito eles apenas porque é um universo com o qual tenho mais contato) é comum ter cláusulas que dizem coisas do tipo: "Ao enviar esse filme, o participante reconhece que concorda em...". Nunca li com atenção uma certidão de nascimento, mas creio que seria ao menos justo que nelas se encontrem linhas semelhantes, onde talvez se leia: "Ao nascer, o senhor(a) _____ reconhece que concorda em aceitar...", seguido por uma série de leis referentes ao local do registro. Jesus Cristo deve estar orgulhoso de nós. Somos todos excelentes cristãos. Afinal, o que fazemos, a toda hora e em qualquer lugar do mundo, se não dar a outra face a quem adora nos bater?
domingo, 3 de outubro de 2010
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